Chapa de aço
Chovia bala perdida. Nuvens de traçante. Não era guerra, mas o som do tiroteio de tudo quanto era calibre pronunciava algo bem parecido, ainda por conciliar esta semelhança com o barulho de uma granada emanando-se pavorosamente.
- Assim não é possível – disse Brasileiro à sua esposa quando percebeu que dois tiros tinham destroçado o último troféu que conquistou no grande torneio de futebol do bairro que mora. - Todo dia acontece de entrar bala aqui bem. Quando isso vai ter fim? – perguntou Brasileiro, mas era em vão, e não esperava resposta. Ele sabia que não as tinha a esposa. Quem as tinha então? Ele sabia que eram os políticos. Esses homens que o povo escolhe pra governar as vossas vidas, mas que no fundo somente a deles eles dão atenção. E a dos familiares, claro, quando tinham que pôr-los ao seu lado no gabinete, na prefeitura.
- Como vem a se chamar isso bem? – perguntou Brasileiro e essa não foi em vão. A esposa sabia, pois lhe falara ontem mesmo:
- É nepotismo bem.
- Deve ser – o caso era que Brasileiro conhecia aonde procuraria quem o ajuda-se. E na semana seguinte teria a oportunidade. Nessa semana trabalharia em sua casa.
Desceu sua rua – na semana seguinte - em direção a uma turba de militantes de um candidato a prefeito na esperança de encontrá-lo ali a pedir votos. E teve sorte. Estava lá o sujeito nos braços humildes do povo que a tudo espera que se dê jeito. Estava de sorriso armado. Cínico ou não ele gostava de ali estar. Pois que sendo época de eleição era o local certo. “dê-me seu voto, meu povo, que eu trago milagres” essa era a mensagem oculta e dissimulada do sorriso no rosto do candidato.
- E os tiroteios quando vão acabar? – perguntou Brasileiro.
- Meu caro amigo Brasileiro. Que bom que veio. Estou imensamente feliz. – parecia que o melhor amigo do candidato acabara de chegar, mas todos ali não são seus melhores amigos? Embora todos os candidatos fossem desta simpatia, a Brasileiro ele não convencia. Ele queria sua resposta.
- Vamos fazer melhorias em todas as áreas do nosso bairro – o candidato deve ter uma maquiagem de ferro para repetir tantas e tantas vezes as mesmas promessas. A mesma ladainha sempre. Deve ter, por que também elas nunca acabam.
- Gostaria que fosse a minha casa – disse o Brasileiro
- Sim, será um imenso prazer meu amigo – disse o candidato
Depois de mais alguns apertos de mão e abraços fingidos o candidato arrumou um tempo pra ir com Brasileiro a sua casa. Lá chegando se sentaram no sofá, apanhou uma xícara de café. Bom, não era uma xícara, mas o prefeito disse que era por simpatia. Depois elogiou o café, isso fora deveras, pois que nem tudo proferido da boca de político eram mentiras. O café de esposa era conhecido por todos do bairro e muito apreciado.
- Gostaria de saber o que o senhor pensa de sua gente? – pergunta inesperada e desconcertante que fizera Brasileiro. E por alguns segundos teve de pensar o candidato. Não tinha nenhum discurso em memória naquele instante. Por fim respondeu emendando as palavras:
- A esse povo maravilhoso que tenho orgulho de dizer que daqui vim. Louvo todos os caracteres desta gente forte e lutadora que vive de seu trabalho honesto e suado. Os braços fortes que movimentam a economia deste país. Esses homens que brigam por suas famílias. As mulheres dedicadas a elas. Os filhos amorosos. Essa minha gente nobre que sorri nas dificuldades. Goza da força de seus corpos nas grandes festas animadas.
- É nisso que teu discurso lhe faz acreditar. Pois você bem sabe que em nada estas palavras são verdadeiras; pelo menos no jeito que você fala. Quando daqui saiu à coisa já não era boa, e você pode muito bem se lembrar. O pior você não conheceu por aqui não estar, não sentiu na pele, mas sabe o que tudo acontece com o povo de teu lugar. Trabalhamos honesto e suado, sim, e nisso gostaríamos de crer que vocês do poder também façam. Olhando por nós e nos ajudando, amparando com as mãos nós que aqui precisamos muito. Como você disse “brigamos por nossa família” defendemos como podemos dos bandidos que nos rodeiam. Fazendo barreiras pras balas não penetrarem; fazendo barreiras pras águas não penetrarem. Lutamos com as escassas armas que temos, entretanto você as tem em mais números e pra nosso beneficio. E como não sorri nas dificuldades, pois nelas encontramos os amigos com sorrisos nos rostos tentando nos alegrar trazendo esperança. Apoio. O sorriso no rosto, não a tristeza na alma. As grandes festas animadas são pra purificar esta alma sedenta por uma vida mais digna, que venha por você, por onde se deve começar.
- Que isso amigo Brasileiro, vamos arrumar tudo. – disse o candidato intimidado
- Espero que tenha verdade nas suas palavras.
Um grande tiroteio iniciou-se interrompendo a conversa. O candidato enlouquecido de medo se jogou ao chão, rastejando-se até um sofá que já havia um buraco de bala. Apavorado ao vê-lo correu de quatro até uma estante próxima. Ali ele pode notar que Brasileiro e sua esposa nada faziam. Pareciam não temer os tiros que zuniam por todo o telhado. Se arrebentado na parede do lado de fora.
- Não tenha medo. Depois de tantas vezes que passamos o pavor que agora você passa, mandei que derrubassem esta parede e a reforcei com concreto. Bala aqui não entra mais. Nas janelas lá em cima pus chapas de aço de grande espessura, também lá não entram.
- Muito bem feito Brasileiro. Sempre dando um jeitinho
- O que vai fazer quanto a tudo isso?
- Bom, pra começar vou mandar fazer paredes como essa lá em casa. Depois acertamos o resto.
- Tome – Brasileiro estende sua mão ao candidato e lhe dá um troféu crispado de balas - era de seu pai. Que muito nos ajudou aqui.
Depois se foi o candidato, mas não sem antes fazer outras promessas.
- Você acha que ele vai ajudar? - perguntou a esposa
- Não sei – responde Brasileiro – mas como ele disse: “somos gente nobre que sorri nas dificuldades”, um dia iremos sorri, sim, mas sem as dificuldades.
- Assim não é possível – disse Brasileiro à sua esposa quando percebeu que dois tiros tinham destroçado o último troféu que conquistou no grande torneio de futebol do bairro que mora. - Todo dia acontece de entrar bala aqui bem. Quando isso vai ter fim? – perguntou Brasileiro, mas era em vão, e não esperava resposta. Ele sabia que não as tinha a esposa. Quem as tinha então? Ele sabia que eram os políticos. Esses homens que o povo escolhe pra governar as vossas vidas, mas que no fundo somente a deles eles dão atenção. E a dos familiares, claro, quando tinham que pôr-los ao seu lado no gabinete, na prefeitura.
- Como vem a se chamar isso bem? – perguntou Brasileiro e essa não foi em vão. A esposa sabia, pois lhe falara ontem mesmo:
- É nepotismo bem.
- Deve ser – o caso era que Brasileiro conhecia aonde procuraria quem o ajuda-se. E na semana seguinte teria a oportunidade. Nessa semana trabalharia em sua casa.
Desceu sua rua – na semana seguinte - em direção a uma turba de militantes de um candidato a prefeito na esperança de encontrá-lo ali a pedir votos. E teve sorte. Estava lá o sujeito nos braços humildes do povo que a tudo espera que se dê jeito. Estava de sorriso armado. Cínico ou não ele gostava de ali estar. Pois que sendo época de eleição era o local certo. “dê-me seu voto, meu povo, que eu trago milagres” essa era a mensagem oculta e dissimulada do sorriso no rosto do candidato.
- E os tiroteios quando vão acabar? – perguntou Brasileiro.
- Meu caro amigo Brasileiro. Que bom que veio. Estou imensamente feliz. – parecia que o melhor amigo do candidato acabara de chegar, mas todos ali não são seus melhores amigos? Embora todos os candidatos fossem desta simpatia, a Brasileiro ele não convencia. Ele queria sua resposta.
- Vamos fazer melhorias em todas as áreas do nosso bairro – o candidato deve ter uma maquiagem de ferro para repetir tantas e tantas vezes as mesmas promessas. A mesma ladainha sempre. Deve ter, por que também elas nunca acabam.
- Gostaria que fosse a minha casa – disse o Brasileiro
- Sim, será um imenso prazer meu amigo – disse o candidato
Depois de mais alguns apertos de mão e abraços fingidos o candidato arrumou um tempo pra ir com Brasileiro a sua casa. Lá chegando se sentaram no sofá, apanhou uma xícara de café. Bom, não era uma xícara, mas o prefeito disse que era por simpatia. Depois elogiou o café, isso fora deveras, pois que nem tudo proferido da boca de político eram mentiras. O café de esposa era conhecido por todos do bairro e muito apreciado.
- Gostaria de saber o que o senhor pensa de sua gente? – pergunta inesperada e desconcertante que fizera Brasileiro. E por alguns segundos teve de pensar o candidato. Não tinha nenhum discurso em memória naquele instante. Por fim respondeu emendando as palavras:
- A esse povo maravilhoso que tenho orgulho de dizer que daqui vim. Louvo todos os caracteres desta gente forte e lutadora que vive de seu trabalho honesto e suado. Os braços fortes que movimentam a economia deste país. Esses homens que brigam por suas famílias. As mulheres dedicadas a elas. Os filhos amorosos. Essa minha gente nobre que sorri nas dificuldades. Goza da força de seus corpos nas grandes festas animadas.
- É nisso que teu discurso lhe faz acreditar. Pois você bem sabe que em nada estas palavras são verdadeiras; pelo menos no jeito que você fala. Quando daqui saiu à coisa já não era boa, e você pode muito bem se lembrar. O pior você não conheceu por aqui não estar, não sentiu na pele, mas sabe o que tudo acontece com o povo de teu lugar. Trabalhamos honesto e suado, sim, e nisso gostaríamos de crer que vocês do poder também façam. Olhando por nós e nos ajudando, amparando com as mãos nós que aqui precisamos muito. Como você disse “brigamos por nossa família” defendemos como podemos dos bandidos que nos rodeiam. Fazendo barreiras pras balas não penetrarem; fazendo barreiras pras águas não penetrarem. Lutamos com as escassas armas que temos, entretanto você as tem em mais números e pra nosso beneficio. E como não sorri nas dificuldades, pois nelas encontramos os amigos com sorrisos nos rostos tentando nos alegrar trazendo esperança. Apoio. O sorriso no rosto, não a tristeza na alma. As grandes festas animadas são pra purificar esta alma sedenta por uma vida mais digna, que venha por você, por onde se deve começar.
- Que isso amigo Brasileiro, vamos arrumar tudo. – disse o candidato intimidado
- Espero que tenha verdade nas suas palavras.
Um grande tiroteio iniciou-se interrompendo a conversa. O candidato enlouquecido de medo se jogou ao chão, rastejando-se até um sofá que já havia um buraco de bala. Apavorado ao vê-lo correu de quatro até uma estante próxima. Ali ele pode notar que Brasileiro e sua esposa nada faziam. Pareciam não temer os tiros que zuniam por todo o telhado. Se arrebentado na parede do lado de fora.
- Não tenha medo. Depois de tantas vezes que passamos o pavor que agora você passa, mandei que derrubassem esta parede e a reforcei com concreto. Bala aqui não entra mais. Nas janelas lá em cima pus chapas de aço de grande espessura, também lá não entram.
- Muito bem feito Brasileiro. Sempre dando um jeitinho
- O que vai fazer quanto a tudo isso?
- Bom, pra começar vou mandar fazer paredes como essa lá em casa. Depois acertamos o resto.
- Tome – Brasileiro estende sua mão ao candidato e lhe dá um troféu crispado de balas - era de seu pai. Que muito nos ajudou aqui.
Depois se foi o candidato, mas não sem antes fazer outras promessas.
- Você acha que ele vai ajudar? - perguntou a esposa
- Não sei – responde Brasileiro – mas como ele disse: “somos gente nobre que sorri nas dificuldades”, um dia iremos sorri, sim, mas sem as dificuldades.